sexta-feira, 8 de julho de 2011

Retrato de um duque quando velho

“Preso pelo cordão umbilical, somente poderia alcançar o repouso no ponto mais degradante de sua oscilação após um movimento tortuoso e um tempo considerável.”
Das revoluções metafísicas. Cap. VI

Meu pai morreu dormindo, à tardezinha. Descansava sua pança empanturrada no jardim do palácio, como sempre fazia nas reuniões familiares mais privadas. Por ele, o faria também nas grandes festividades, nas recepções analiticamente elaboradas de dona Gertrudes, nas mais propícias horas e que se dane o decoro. Mas o decoro... Que morresse como um pecador. O infortúnio quem sofre sou eu, com esse fardo católico pesando em minha cabeça e nos arredores. A tradição, meus caros, tem duas mãos de chumbo e a gravidade a seu favor. Meu pai morreu e seu fantasma ainda me atormenta, por mais que Dr. Freud tenha os remédios. O que causa surpresa é, já naquele tempo, termos tão em conta as razões que nos proíbe o desperdício; as raspas do banquete do funeral servindo a entrada das núpcias... Coisa mais desagradável. Contudo nem só de desventuras lacrimosas vivem os homens. Aprendemos, sim, e certamente nos transformamos, mesmo que nossos ideais destinos nunca sejam tocados na vigília. E como é áspero mudar. Por mais olhos que se tenha, por mais noções e honradez e talentos. A sincera mudança é a que nos chacoalha no balde, quando a corda está por um fio e ainda não podemos ver o chão seco. Como da vez em que meu pai morreu.
               
               A historia já é conhecida. Não vale a pena nem resumi-la, depois de tantos pastiches. Cabe apenas relatar que me cortou a alma em pedaços minúsculo e irreconciliáveis. Primeiro o pai, depois a mãe, depois Ofélia e ainda todos juntos novamente e mais alguns, numa covardia irrecuperável e já corrigida pelos literatos e dramaturgos baratos. Se fugi, se morri para o mundo e para melhor exercer minha liberdade foi por escorregar das mãos das normas, do decoro, da honra que me era esperada. Agi como um rato, como todos aqueles ratos que me olhavam pelas costas com poucos pares de olhos e eu com tantos... A inteligência é uma dádiva e um castigo, salva a pele e a exaspera. Queriam que eu fosse um herói, um modelo. Consegui ser apenas um intelectual herdeiro e depravado, movido por ventos alheios que se me impõem e me constrangem, a mim, um menino sensível como um carvalho num vaso de flores, que se acovardou, forjou a própria morte e sumiu no mundo.
                
               Jamais conseguirei contar o que passei, o que senti, depois que Horácio e eu trocamos de papel. Meu duplo, um contador de histórias...  Não conseguiria porque a mínima lembrança me enche o coração e rouba-me as palavras... O fato é que vaguei. Corri e venho correndo o mundo, protelando a hora de ser homem, afastando a madureza com frases ordinárias e ironias desgastadas (quão velha está essa figura!), olhando com séria desconfiança e interesse dissimulado para os objetos que encontro, estudo e descarto como um rato de laboratório fatigado. De que me vale o mundo se o mundo me virou de ponta cabeça? O mundo e suas molas desproporcionais, suas encruzilhadas, sua parca diversão. Divirto-me comigo mesmo, no meu pedestal rebaixado, de onde tudo vejo e tudo desprezo pelo humilde gosto do riso. É como tentar forjar uma comédia dentro do épico, do nobre. Quando não se tem a mínima certeza sobre qualquer coisa arrumamos alguns deveres e alguns prazeres. São como bóias no mar alto e laminado.
                
               Não pensem que procuro algo. Não sou nem serei nada; nem mesmo sonho. Olho para os lugares, escuto, replico, provoco, mendigo um deslize, um olhar ou um gesto mentiroso. Minto também. Procuro confundir, enquanto brinco com toda a massa estéril e anestesiadora que me legaram meus preceptores. Posso dizer, meus caros, que minha vida virou um jogo no qual só as batalhas me importam, afinal, no fim das contas, há sempre um rio para carregar cada um, uma musica para acalentar a tristeza, uma loucura para aliviar o tédio das quatro paredes, dos quatro pontos cardinais. A vitória é para as flores, que não usam máscaras nem resistem decididas pela resignação.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Lugar Comum


A bandeja; a janela
na bandeja.
A montanha no alto
do fundo da parte
detrás dos edifícios,
na janela, há pairar
sobre o alumínio 
de nossas fomes, onde
um verme dedicado
rói nossas entranhas.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Amão*

        
          Ele estava preocupado. Estalava os dedos e olhava de um lado para o outro. Puxou um cigarro do maço e riscou o isqueiro por seis vezes até obter a chama que lhe traria o trago tranqüilizador. Pensou por um instante. Sabia que não devia, mas mesmo assim desencostou da parede, deixando a visão de uma rua vazia e a trocando pelas escadas da entrada. Subiu os degraus e apertou o botão.
-          Pronto?!
-          Sou eu.
-          E me traz boas novas?
-          Se você vê por esse lado... Agora abre logo essa merda, tá frio pra caralho aqui fora.
Enquanto se virava para a rua novamente, pensava se não era o momento exato de correr o mais rápido possível, para o lugar mais longe que suas pernas o conseguissem levar, mas o som da espessa porta de ferro se abrindo o fez acordar. Ele foi entrando, atravessou o corredor de paredes de madeira, passou pela sala de estar do edifício com uma mesinha de centro em mármore e um sofá vermelho.
            A batida na porta foi o que se escutou dentro do apartamento já vazio de espíritos, era o destino quem batia, era o derradeiro chamado para os dois.
            O amigo abriu a porta, tomado pela ansiedade de quem espera nove meses. Recebia o fim, ao invés.
-          Trouxe?
-          Trouxe, mas não devia.
-          Larga a mão desse negócio, o meu tá aqui também.
-          Ah, isso é muito tranqüilizador. Aonde você quer fazer isso?
-          Vamos sentar, daqui a pouco a gente decide. O mais importante é: quem vai e quem fica?
-          Não sei qual é o pior.
Em meio a lençóis brancos, que cobriam todos os móveis da sala, ele achou uma cadeira para sentar, deu um grande trago no cigarro e soprou a fumaça como se estivesse evacuando a alma. Pensava que se fosse para ir, ele mesmo iria.
-          Você quer ir ou ficar?
-          Bom, eu cansei dessa casa, vivo nela desde... Sempre.
-          Qual você prefere?
-          Na minha opinião quem fica, fica na merda, por motivos óbvios.
O amigo desviou o olhar por alguns instantes, como se pensasse se estava certo o que acabara de dizer. De certa maneira estava. Quem vai não tem motivos nem meios para reclamar, talvez meios até tivesse, mas centros espíritas estavam fora de cogitação por princípios particulares.
-          Que horas são? perguntou o amigo, procurando um relógio à sua volta.
-          Três e meia. Disse o outro olhando o celular.
-          Então está na hora. Aonde vai ser?
-          Não existe hora certa, mas já que tem que ter uma, pode ser agora. Acho que o banheiro é mais fácil de limpar, né?
-          Se tem uma coisa que eu não vou fazer, se eu ficar, é limpar a bagunça.
Ele seguiu o amigo até o banheiro. Suava como se estivesse em um forno. A mão tremia, sua camiseta estava encharcada. O banheiro se abriu e os azulejos azuis contrastaram com a sala envolta em sombras e poeira. Ele parou. Pensou. Hesitou por alguns instantes. Olhou seu amigo entrando dentro do box e ligando o chuveiro. O ouviu perguntar:
-          E ai, vou eu ou vai você?
Sem pensar, pegou na mão do amigo que regulava a temperatura do quente para o frio, e como dois corpos humanos opostos, feitos um para o outro, encaixou a sua própria mão na dele, tornando-as uma só.
            Depois disso, só se ouviu um...
E silêncio.
Ele riscou mais tantas vezes o isqueiro até conseguir acender outro cigarro. Caminhando lentamente, se aproximou da janela. Seis andares dariam uma boa queda, mas o reencontro não estava na pauta do dia. Então simplesmente andou, deixando a sujeira vermelha para tras, Carregando em seu corpo o remorso cravado por uma bala cravada na testa e a mão que antes tocara o outro e que agora fazia parte de um inteiro pela metade.


* Texto das antigas, baseado no roteiro de Lucas Camargo e levemente modificado por esse.   

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Ensaios e Fragmentos

O pensamento axiomítico é veículo de transcendência humana. Essencialmente aventureiro, desconhece os caminhos terrestres do abraço e da prosa pequena em favor de desventuras solitárias em alto mar. Os marujos, brutos e melancólicos, são compensados, entretanto, pela possibilidade de vislumbrarem, por entre as rochas e a neblina, o arquipélago das verdades. De tempos em tempos algum homem, enjoado pelo balanço do mar ou pela impossibilidade de prosseguir e atracar, se joga e nada, idiota e feliz, em direção a morte certa contra um paredão de pedra. 

terça-feira, 31 de maio de 2011

O Poço

O horizonte é o poço, como um campo magnético. Desde seu surgimento, imemorável, atraiu a curiosidade de todos. Bastava ouvir falar para se apaixonar por tamanho mistério. Logo todas as comunidades da redondeza conheciam sua fama. Lá as crianças brincavam livremente, correndo, caindo e tornando a correr; invariavelmente brigando, mas se entendendo no final. Os jovens serestavam à noite em torno do poço, namorando. Os velhos descansavam o corpo, tranqüilos, esperando o fim. Certo dia um homem, uma cuia e uma corda descobriram que o poço também alimentava. Divinamente extraia-se dele um liquido acinzentado, que era filtrado e servia de fonte de energia e bravura. Criou-se assim o habito de se comemorar com um festim aquele presente, habito que se espalhou e cresceu. Primeiro vieram os malêus do alto das colinas. Depois os tramoianos da planície sul e os gambiarreiros da planície norte. Do litoral próximo os perdigotos, do afastado os cêntricos e os bárbaros. O festim tornou-se festival. Os povos distantes começaram a armazenar o liquido que adquiriam e levavam embora. No ultimo festival registrado todos os povos, surtados, se mataram na disputa da fonte da vida.
Chamado hoje em dia, erroneamente a meu ver, de ‘Fonte de Baco’, o poço ganhou ares modernos. Circunscrito em um parque, estabilizado como patrimônio, é imagem de um passado que os visitantes, vindos pela esquerda e idos pela direita mediante o pagamento adiantado, não conhecem. Não sabem, por exemplo, que o motivo de ficarem afastados por uma barra de segurança a cinco metros do poço se deve aos invariáveis acidentes ocorridos em toda a história daquele buraco. Mais de um desatento se inclinou sobre o parapeito circular de tijolos lúgubres, encantado e excitado, e não resistiu ao peso do corpo. Diz a lenda que nenhuma das vitimas foi encontrada e que o poço é, na verdade, a boca ou a porta para outro mundo. Diz-se também que o liquido, ao contrario do que dizem os especialistas, alimentava não a energia e a bravura, mas sim a covardia e a autocomiseração, além de ser insosso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ensaios e Fragmentos

       A obra literária instaura uma ambigüidade que, a grosso modo, pode ser representada pelos signos da sombra e da luz. Não sendo propriamente uma relação dicotômica a apresentada entre os termos, destitui-se o caráter sistêmico da obra literária em si para se afirmar o caráter inefável de um pólo que não se mostra, mas apenas se deixa entrever. Um pólo indescritível, já que vazio. Um pólo onde age, limitadamente, a arbitrariedade do leitor, produtor de sentido. A luz do escritor e a luz do leitor, unidas, projetam sobre esse vazio a matéria própria da literatura, que é, talvez, a sombra disforme de uma unidade. 

sexta-feira, 22 de abril de 2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Traça em prosa*

Preso em uma viela colonial, por trás das palavras. Sobretudo, percebo as coisa à mão, as coisas que a mão procura , tateia com autoridade, utiliza como prática. Um copo, um cigarro, uma boca. Por trás do toque toda uma infinidade de outras coisas, abstratas, pseudoconcretas, vagas como o mar. Poéticas como todas as outras; o rabo do galo, o espanto, o tempo. Perigosas como poucas, como os livros e os atos, os prazeres e os contratos. Viela parcialmente construída, ajuntamento de tijolos uniformemente. Conseqüências da geometria. Geometria dotada de passado, presente, futuro. Geometria sem retinas para absolver os fatos. Geometria maçante e maciça, vertiginosa ao claustrofóbico. Penso, resisto; afrouxo e perco à primeira centelha de paixão, palavra difícil, difusa, impertinente. Qual o propósito, do tempo frio, do tédio, da folia? Moeda comum de muitas faces, a vida escancarada, a perversa realidade? Penso, com muita freqüência, nas possibilidades da vida gregária. Alteridade, preconceito, argumentos, merecimentos. Do que somos feitos nós, como coletividade, sem idealismos? Sem as hipócritas prescrições, que atingem tanto a nobre burguesia cafona quanto a estilizada classe alternativa estudantil. Sem os mitos e as necessidades correntes. Paraíso perdido na onírica ilusão. Por conta de quem? Curiosidade infantil... se não fosse a autocensura... seguro um isqueiro, uma caixa de madeira. Trago, no mínimo, uma tranqüilidade transparente e transeunte, passeio de euforia no marasmo, depravação da subjetividade. Depravação? Revisão, talvez. Qualquer coisa menos uma afirmação, quase sempre eufórica e imbecil. Dúvida. Um trago de dúvida, uma resposta de fumaça. Sim, dúvida. Fruto dileto do mistério, do incognoscível, do inescrutável.  Dos olhos, da alma, das vísceras. Fruto, principalmente, da ignorância nossa de cada dia, sub-repticiamente escamoteada. As classes, as roupas, os catálogos e rótulos rodam na descarga das necessidades comuns, da merda e do macarrão. E a diferença brilha na indumentária, como brilham os animais treinados, por trás das palavras, presos em uma viela colonial.


* Traça: entendida aqui, sobretudo, como inseto adotado da racionalidade e, desta forma, crítico, como já disse outro. A prosa é considerada no seu sentido corrente. 

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Diagnóstico


"Sonhei que atravessava espelhos. Encarava-os com dignidade e resistência. Olhava no fundo dos olhos que me miravam e me lançava. Depois de uma meia dúzia deles me deparei com um garoto pequeno e magro, que segurava uma jarra de leite. Levava-a à boca, hesitava, olhava para o lado, afastava a jarra em direção ao peito. Tentei socá-lo, mas minha mão estava como que presa, segura pela culpa ou pelo receio. O teto, então, desabou e trouxe consigo uma chuva brilhante de placas de transito, acostamentos, olhos de gato, rotatórias e entradas impedidas. Aquela alucinação causou-me vertigem, então me joguei ao chão, como quem afunda o rosto num balde d’água. Senti o silêncio do mar profundo, ouvindo as cores insinuantes, perigosamente. Quando emergi tudo estava mudado. Procurei em vão a saída daquele palácio tão nobre e ao mesmo tempo tão mal-acabado. Acordei com o despertador, tocando como sino na torre."

Fragmento de carta a Andrei Tarkovski.
 

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Vida de Mendigo

Acabei de encontrar João Roberto, antigamente conhecido pela turma como Hercules. Era mesmo, profissionalmente, um reinador de marca maior. Destemido, chegou a beter em um menino na presença do senhor diretor. Ainda me lembro do pequeno jogo que fazíamos no intervalo, chutando lata de refrigerante amassada até passá-la por baixo, pelo vão da perna de alguém, para aplicar o castigo na bunda. Fernandinho, que não ornava com nossa turma, se achando agredido por um chute mais forte que Hercules lhe dera, retribuiu com uma cotovelada no peito e correu, atravessando pátio, corredores, a bandeja do café do diretor para se enfiar na sala desse. Hercules entrou logo em seguida e nem pensou, fechou a mão e mandou ver.  Isso foi na quarta serie. Na quinta João Roberto quebrou a clavícula e a perna quando foi arremessado pelo ventilador de teto. Fez também uma professora chorar, pois era um instigador e transformara a ultima aula do dia num grande mercado de aviões e bolinhas de papel, lançadas por mãos e canudos de caneta. Hercules foi expulso e eu para outra escola.
Vi-o primeiro pela janela. Desci as escadas correndo, passei na geladeira e sai. Ele já ia passando.

- Hercules – chamei – Hercules! Robertinho!

Ele virou a cabeça, mas continuou a andar, só parando ao me ver correr em sua direção.

- ei, João Roberto, como vai? Quanto tempo! Não lembra de mim? – disse, abrindo os braços e sorrindo.
- claro, meu velho. Como que você tá com essa força?

Depois de um momento sem jeito, meio aperto de mão, meio abraço, meio tapinha nas costas, e do brinde, perguntei como andava sua vida.

- vai andando, né, meu velho? Difícil pra todo mundo.
- com certeza, com certeza. – respondi, enfático. – mas sempre a gente da um jeito neh? Ainda mais você, sempre esperto. Tá morando onde?
- moro pro lado da rodovia, indo pro batalhão. Ali, atrás da companhia de luz. É lugar bom, viu, meu velho? Só atrapalha mesmo a poeira, por que aquele terrenão da companhia é uma terra disgramada. Mas também ajuda um pouco. Porque assim da pra cutucar o nariz com mais gosto. E você que tá morando bem aqui. Lugar bom esse aqui, não é?
- é sim. É bem calmo.

Bebi o resto da cerveja, joguei a lata fora e abri a outra que estava na reserva. Brindamos mais uma vez e Robertinho me disse:

- é gostoso mesmo toma uma cerveja. Eu não bebo muito não, sabe? Prefiro não arriscar de ficar com o demônio no corpo. Mas assim, às vezes eu tomo uma de leve. Não cerveja, que fica meio caro. Tomo meio corotizinho no sábado, ou no domingo. E só assim, porque o trabalho fica mais fácil nesses dias, o pessoal fica mais em casa, né?
- o que você faz? Perguntei a ele, interessado.
- Bom, eu sou autônomo, né? Trabalho de vigia. – respondeu Hercules, caminhando lentamente em direção a calçada – trabalho duro. Tem que ter as perna boa, corre perigo. Paga mal, mas a gente da um jeito de implanta a renda.

Dito isso ele abaixou-se e remexeu na moita onde havia jogado a latinha. Colocou-a no chão e pisou em cima, guardando depois na sacola que carregava nas costas, enquanto dizia:

- por exemplo as latinha né? Eu não sou catador não. Mas eu vou juntando umas pros catador depois passar em casa e eu vendo pra eles. Fico no meio lucro, né? Porque eles ganham mais vendendo pro reciclador. Mas tudo bem também. Por que se eu tivesse que pegar latinha à vera não ia poder estar trabalhando no meu ramo, que é a vigia mesmo. Eu gosto mesmo de ficar ai, andando pelos bairro.

- em que bairros você trabalha?
- em todos. Fico das onze as cinco em um, ai vou na rodoviária, ou no centro mesmo, pra arrecadar algum e comer alguma coisa. As seis vou pra outro bairro, fico até as quatro da madruga. Depois algum posto de gasolina ou boteco resolve meu problema da janta. O gostoso mesmo é brincar com o pessoal na rua, sabe? À noite assim eu fico andando como se estivesse escondendo. Encontro alguém vindo na minha direção já dou meia volta, entro na próxima rua, dou a volta no quarteirão e saio por trás dela. Passo do lado dela, andando ou correndo, e sumo atrás de uma arvore. Fico observando as pessoas. De dia é mais complicado. O que da pra fazer é pedir as coisas nas casas, contanto umas boas historias, de chorar ou de rir. Com uma boa historia da pra conseguir umas coisas boas, mas mesmo assim é difícil.
- ê Robertinho. Não toma jeito mesmo, né? – disse, rindo - você se lembra daquela vez em que você socou o Paulo, na sala do diretor?
- claro. Menino desgraçado aquele viu. Nunca fui com a cara dele.
- ele roubou seu lanche, não foi?
- foi sim. Isso mesmo.                                          
- é. Ele era um tanto folgado.
- Muito. Um tanto não, muito folgado. – respondeu ele.

Eu disse a ele que estava tarde demais e era melhor eu ir deitar. Apertei sua mão. Ele me pediu ainda mais uma cerveja.

- nossa, João, mil desculpas. Essas eram as ultimas.

Ele agradeceu e disse que não importava. Eu entrei, lavei a mão, passei na geladeira e subi para o quarto. 

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Questões de foro filosófico:

A barata


Única herdeira de Deus, o qual manterá todo nosso planeta sobre seu jugo até nos exterminar com um peido atômico, a barata é um exemplo de determinação e força de vontade. Exemplo perfeito também do estilo gregário de vida, adquiriu, ao longo dos séculos, impressionante resistência contra solas de chinelo, inseticidas vagabundos e ambíguas armadilhas, podendo mesmo se passar por morta para, alguns minutos depois, desaparecer, como se fizesse parte de alguma série televisiva nortiamericana. Individualidade polêmica, agrada uns e desperta ojeriza em muitos outros, principalmente quando surpreendidas em seus lanches noturnos, passeando por prateleiras e armários em busca de açúcar, farinha e tudo mais que sirva  na janta.  Em troca da subsistência deixa os excrementos e restos mortais que carrega nas patas e na barriga, material indelével colhido em outros restaurantes. Tem sua existência favorecida pelos hábitos pouco higiênicos do homem, seu maior inimigo. Atingiu o estrelato ao lado de Will Smith e Tommy Lee Jones, quando interpretou um alienígena; desde então tem seu nome associado a certo tipo de densidade sanguínea presente nos integrantes de determinadas classes políticas de alguns países tropicais.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Rede Social - Um autoretrato

Em meu leito de morte, arrotando três belos canelones e uma ou duas garrafas de vinho enquanto a ambulância atrasa, fumo um cigarro para diminuir a pressão cardíaca. Chamo minha mulher e, entre grandes inspirações e um cheiro podre vindo aos berros, lhe conto uma última memória:
            “Sabe, sempre gostei da noite. Até das noites não tão frescas quanto esta... um privilégio pelos serviços prestados. Muitas pessoas gostam da noite, não? Pois é, não como eu. Muitas acham que a noite é uma estrela, a lua uma bandeira e as estrelas, as estrelas coitadas, são meros sonhos luminosos. A mim interessam as estrelas como um gigantesco jogo de ligar os pontos e a lua... a lua cheia é como uma interessante lanterna. Era como se a noite, ao longo da minha vida, através de seu silêncio e de seu barulho, me mostrasse um mapa de minha própria confusão e a resolvesse, efemeramente. Algo parecido com o efeito da musica em nosso corpo. Mas vá lá, não precisamos dela agora; um prazer de cada vez.
            Pois naquela noite, noite de um dia terrível, em que fui despedido e despejado, com direito a banho de chuva indesejado e uma sorte incrível de pensamentos pessimistas, o melhor que eu podia fazer, me conhecendo razoavelmente bem, era brincar um pouco a sós com a fumaça de meus cigarros e me entregar aos sonhos, fossem eles quais fossem. No entanto meu celular tocou e, como se tratava do Chabrol, dei a chamada perdida. Inútil. O fixo tocou. Entre um mau humor mal disfarçado e o sono atendi:
- alo.
- to precisando de você, Chico.
- como assim? agora?
- é sério. to passando ai, bele?
- Amanha, né?
-Eu preciso, se não não vou conseguir dormir...bele?
-Beleza pura.  
Quando ele chegou pude perceber que estava realmente abalado. Andava de um lado para o outro, fumando seu sempre vagabundo cigarro, limitando sua fala a perguntas estúpidas e palavras sem nexo, típicas de quem se encontra remoendo desacertos.  Enrolei um legítimo Wensceslau Braz, que vinha guardando há um bom tempo, e lhe dei. Enrolei outro para acompanhá-lo e disponibilizei todas as poucas bebidas que havia em casa, sempre o acompanhando, pois, como ele, eu já era um bom conhecedor das madrugadas e sabia que aquela iria durar um bocado. Cervejas, uma cachacinha, alguns drinks, outros tira-gosto e pronto, já estávamos envolvidos perigosamente com a vodka. O silêncio irremediável que ambos gostamos de cultivar já tinha sumido, cedendo lugar as risadas disparatadas e a conversa mole que só a noite pode nutrir.
            Sem muito esforço Chabrol me convenceu de tomar rua, andando perdido de bar em bar, de buraco em buraco... em nome do velado e seriamente nobre pretexto da alegria desmesurada e suas consequentes confusões. Descemos a Av. independência, cruzamos a Caio Prado Jr. e desembocamos na boca do lixo, no centro, que tanto nos agradava. Pelo percurso alguns esclarecimentos e dois ou três balcões. Quando entramos na rua do mercado já estávamos preparados para enfrentar o bar do adão. Lugar singelo, com uma bela estufa repleta de torresmos cabeludos, bolovos esverdeados e coxa de galinha da angola. Tudo muito apetitoso e pouco recomendado para um lanche há uma da manha. Gostávamos de lá pela mesa de bilhar e pelos freqüentadores assíduos, sempre mais bêbados do que nós e dispostos a ouvir umas boas mentiras. Contamos varias naquela noite... ganhamos algumas cervejas com os tacos e fomos embora antes que a coisa pudesse engrossar, afinal, ninguém gosta de perder, nem mesmo os alcoolistas.   
Caímos então n’A Caneca a Sério, um bar com clientes mais cheirosos, com um maior apelo estético e algumas garotas jovens para ocupar o nosso tempo. O bar, no estilo boteco carioca, tinha azulejos brancos, pretos e azuis do chão ao teto. Era um estabelecimento salgado, onde instituímos o movimento por um bife mais em conta. Como nosso projeto ainda não havia dado em nada, jantamos um pintado na telha, discutindo coisas como o cardápio, em falta com os conhaques e surpreendendo com uma maria-mole com catuaba, ou coisas como a carga de ironia nas musicas de Jorge Ben. Entre uma idéia e outra, abraçávamos o silencioso vai e vem das saias e calças vaidosas das moças. Não sendo a noite da febre do rato, pois tínhamos outras perturbações mais sérias do que a sexual, saímos do bar sem falar com nenhuma menina, sem anunciar a pendura e voltamos para as calçadas. Agora mais frias e obscuras.
Naquela altura do campeonato... e isso já é um tanto irônico, prevíamos o fim da noite. De fato, caminhávamos para ele, onde toda a turma se encontrava. Sentimentais, apaixonados, fracassados, nostálgicos, moderados, liberais, intelectuais e livres pensadores, todos no balcão do Zé. Todos torcedores e crentes. A discussão que reinava era longa, cíclica, alta e desordenada. Todos falavam com todos ao mesmo tempo, entre abraços e sorrisos e palavrões, experimentando uma intimidade controversa e inesquecível. A conversa fiada e o papo furado eram as diretrizes do ambiente, varias vezes atravessado também por tampinhas de cerveja, que rodavam no ar e mergulhavam nos copos. O próprio Zé era quem fazia os lançamentos, como proprietário. Quando virava cliente e transformava, com todo seu poder, algum cliente em dono, a coisa abaixava de nível, e nas cervejas do pessoal caia até a sujeira do balcão, bem exprimidinha de um pano.
No meio de todo esse fuzuê, de canto, estava Chabrol, silencioso. A ruminação que havia sumido retornara com toda sua força e todo seu esplendor. Chabrol me chamou para fora do bar e, na porta da igreja ao lado, me disse que estava tudo decidido, e que querendo ou não ele executaria seu plano. Pediu para que eu o acompanhasse, disse que para tudo dar certo eu teria que ir com ele, aceitando tudo sem saber de nada, sem poder voltar atrás. Como de perto ninguém é normal, abracei sua causa. Fomos então em direção ao shopping, para enfim chegarmos, sem nenhuma surpresa de minha parte, ao condomínio onde morava Raquel. Minha mãe sempre me dizia: “as falhas de um homem se medem em suas teorias”. Tentei alertar Chabrol que aquilo seria um erro. Tentei dizer a ele que acordá-la às cinco e meia da manha, depois de uma semana, seria inútil, infantil e fatal para qualquer outra chance que ele ainda pudesse esperar. Obviamente eu estava errado, duvidando de seu potencial.
Na guarita alguns meninos conversavam com os porteiros e Chabrol logo se pois a comentar  a seleção e a indignidade do técnico, saudando as opiniões do porteiro como impecáveis, num elogio  fervoroso e cheio de credibilidade. Logo depois entramos no condomínio, alegando que o visível excesso de embriaguez nos matava. A primeira parte estava cumprida, faltava agora alcançar a preciosa janela, e esperar pelas respostas que meu amigo me escondia. Depois de alguns muros e um momento incomodo com um cão lá estávamos nós, dois homens completamente bêbados, sujos e descabelados, cantando “La Boemia”, sem nenhum ritmo, nenhum violão e nenhum talento para o francês. Depois de muita conversa, cento e cinqüenta e tantas ligações e uma boa vontade infinita dos homens da lei, conseguimos, às dez horas da manha, deixar a delegacia. Foi nesse momento que a decisão se mostrou, como quem caminha silenciosamente e de repente aparece, se impondo. Era preciso que eu escolhesse um centro; algo novo para a minha vida. Era imperioso que tudo aquilo de tantos anos vividos construísse novos anos para se viver. Era necessário que eu me entregasse a um novo esforço, a uma nova conquista, a um novo abandono, ou afastamento.
Acredito que a vida seja mesmo como as conversas de balcão: cíclica, alta, desordenada. ”

Pedi a minha mulher que ligasse para ele, agradecesse por tudo, pedisse desculpas pela ausência e contasse a piada do garçom: “ele vai morrer de rir.”

                                                                                      

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Questões de foro filosófico:

O Ser.

Em diversos níveis: Saco cheio de valores e preconceitos, cheio de experiências e utopias. Vaidoso, revoltado, interesseiro. Sabe se portar bem, podendo mesmo ser um praticante da fé. Carente de ídolos, mitos e informação, utiliza-se de sua inteligência, arma diferenciada, em prol da categorização e catalogação dessas, produzindo, destarte, o conhecimento. Rei e servo, o ser se dissolve e se concentra constantemente, indo, dentro das entidades geométricas, do ponto ao triangulo e vice-versa. Essa representação fajuta remete ao potencial de variação entre o ego e o altruísmo, deliberados ou não. Suscetível as paixões, pode reverenciar diversos tipos de prazeres, sendo mesmo capaz de ser insano e irredutível caso eleja algum deles como seu norte. É mundialmente conhecido por sua imaginação, sua arbitrariedade e seu sentimentalismo, que muitas vezes faz valer a pena.