Em meu leito de morte, arrotando três belos canelones e uma ou duas garrafas de vinho enquanto a ambulância atrasa, fumo um cigarro para diminuir a pressão cardíaca. Chamo minha mulher e, entre grandes inspirações e um cheiro podre vindo aos berros, lhe conto uma última memória:
“Sabe, sempre gostei da noite. Até das noites não tão frescas quanto esta... um privilégio pelos serviços prestados. Muitas pessoas gostam da noite, não? Pois é, não como eu. Muitas acham que a noite é uma estrela, a lua uma bandeira e as estrelas, as estrelas coitadas, são meros sonhos luminosos. A mim interessam as estrelas como um gigantesco jogo de ligar os pontos e a lua... a lua cheia é como uma interessante lanterna. Era como se a noite, ao longo da minha vida, através de seu silêncio e de seu barulho, me mostrasse um mapa de minha própria confusão e a resolvesse, efemeramente. Algo parecido com o efeito da musica em nosso corpo. Mas vá lá, não precisamos dela agora; um prazer de cada vez.
Pois naquela noite, noite de um dia terrível, em que fui despedido e despejado, com direito a banho de chuva indesejado e uma sorte incrível de pensamentos pessimistas, o melhor que eu podia fazer, me conhecendo razoavelmente bem, era brincar um pouco a sós com a fumaça de meus cigarros e me entregar aos sonhos, fossem eles quais fossem. No entanto meu celular tocou e, como se tratava do Chabrol, dei a chamada perdida. Inútil. O fixo tocou. Entre um mau humor mal disfarçado e o sono atendi:
- alo.
- to precisando de você, Chico.
- como assim? agora?
- é sério. to passando ai, bele?
- Amanha, né?
-Eu preciso, se não não vou conseguir dormir...bele?
-Beleza pura.
- to precisando de você, Chico.
- como assim? agora?
- é sério. to passando ai, bele?
- Amanha, né?
-Eu preciso, se não não vou conseguir dormir...bele?
-Beleza pura.
Quando ele chegou pude perceber que estava realmente abalado. Andava de um lado para o outro, fumando seu sempre vagabundo cigarro, limitando sua fala a perguntas estúpidas e palavras sem nexo, típicas de quem se encontra remoendo desacertos. Enrolei um legítimo Wensceslau Braz, que vinha guardando há um bom tempo, e lhe dei. Enrolei outro para acompanhá-lo e disponibilizei todas as poucas bebidas que havia em casa, sempre o acompanhando, pois, como ele, eu já era um bom conhecedor das madrugadas e sabia que aquela iria durar um bocado. Cervejas, uma cachacinha, alguns drinks, outros tira-gosto e pronto, já estávamos envolvidos perigosamente com a vodka. O silêncio irremediável que ambos gostamos de cultivar já tinha sumido, cedendo lugar as risadas disparatadas e a conversa mole que só a noite pode nutrir.
Sem muito esforço Chabrol me convenceu de tomar rua, andando perdido de bar em bar, de buraco em buraco... em nome do velado e seriamente nobre pretexto da alegria desmesurada e suas consequentes confusões. Descemos a Av. independência, cruzamos a Caio Prado Jr. e desembocamos na boca do lixo, no centro, que tanto nos agradava. Pelo percurso alguns esclarecimentos e dois ou três balcões. Quando entramos na rua do mercado já estávamos preparados para enfrentar o bar do adão. Lugar singelo, com uma bela estufa repleta de torresmos cabeludos, bolovos esverdeados e coxa de galinha da angola. Tudo muito apetitoso e pouco recomendado para um lanche há uma da manha. Gostávamos de lá pela mesa de bilhar e pelos freqüentadores assíduos, sempre mais bêbados do que nós e dispostos a ouvir umas boas mentiras. Contamos varias naquela noite... ganhamos algumas cervejas com os tacos e fomos embora antes que a coisa pudesse engrossar, afinal, ninguém gosta de perder, nem mesmo os alcoolistas.
Caímos então n’A Caneca a Sério, um bar com clientes mais cheirosos, com um maior apelo estético e algumas garotas jovens para ocupar o nosso tempo. O bar, no estilo boteco carioca, tinha azulejos brancos, pretos e azuis do chão ao teto. Era um estabelecimento salgado, onde instituímos o movimento por um bife mais em conta. Como nosso projeto ainda não havia dado em nada, jantamos um pintado na telha, discutindo coisas como o cardápio, em falta com os conhaques e surpreendendo com uma maria-mole com catuaba, ou coisas como a carga de ironia nas musicas de Jorge Ben. Entre uma idéia e outra, abraçávamos o silencioso vai e vem das saias e calças vaidosas das moças. Não sendo a noite da febre do rato, pois tínhamos outras perturbações mais sérias do que a sexual, saímos do bar sem falar com nenhuma menina, sem anunciar a pendura e voltamos para as calçadas. Agora mais frias e obscuras.
Naquela altura do campeonato... e isso já é um tanto irônico, prevíamos o fim da noite. De fato, caminhávamos para ele, onde toda a turma se encontrava. Sentimentais, apaixonados, fracassados, nostálgicos, moderados, liberais, intelectuais e livres pensadores, todos no balcão do Zé. Todos torcedores e crentes. A discussão que reinava era longa, cíclica, alta e desordenada. Todos falavam com todos ao mesmo tempo, entre abraços e sorrisos e palavrões, experimentando uma intimidade controversa e inesquecível. A conversa fiada e o papo furado eram as diretrizes do ambiente, varias vezes atravessado também por tampinhas de cerveja, que rodavam no ar e mergulhavam nos copos. O próprio Zé era quem fazia os lançamentos, como proprietário. Quando virava cliente e transformava, com todo seu poder, algum cliente em dono, a coisa abaixava de nível, e nas cervejas do pessoal caia até a sujeira do balcão, bem exprimidinha de um pano.
No meio de todo esse fuzuê, de canto, estava Chabrol, silencioso. A ruminação que havia sumido retornara com toda sua força e todo seu esplendor. Chabrol me chamou para fora do bar e, na porta da igreja ao lado, me disse que estava tudo decidido, e que querendo ou não ele executaria seu plano. Pediu para que eu o acompanhasse, disse que para tudo dar certo eu teria que ir com ele, aceitando tudo sem saber de nada, sem poder voltar atrás. Como de perto ninguém é normal, abracei sua causa. Fomos então em direção ao shopping, para enfim chegarmos, sem nenhuma surpresa de minha parte, ao condomínio onde morava Raquel. Minha mãe sempre me dizia: “as falhas de um homem se medem em suas teorias”. Tentei alertar Chabrol que aquilo seria um erro. Tentei dizer a ele que acordá-la às cinco e meia da manha, depois de uma semana, seria inútil, infantil e fatal para qualquer outra chance que ele ainda pudesse esperar. Obviamente eu estava errado, duvidando de seu potencial.
Na guarita alguns meninos conversavam com os porteiros e Chabrol logo se pois a comentar a seleção e a indignidade do técnico, saudando as opiniões do porteiro como impecáveis, num elogio fervoroso e cheio de credibilidade. Logo depois entramos no condomínio, alegando que o visível excesso de embriaguez nos matava. A primeira parte estava cumprida, faltava agora alcançar a preciosa janela, e esperar pelas respostas que meu amigo me escondia. Depois de alguns muros e um momento incomodo com um cão lá estávamos nós, dois homens completamente bêbados, sujos e descabelados, cantando “La Boemia”, sem nenhum ritmo, nenhum violão e nenhum talento para o francês. Depois de muita conversa, cento e cinqüenta e tantas ligações e uma boa vontade infinita dos homens da lei, conseguimos, às dez horas da manha, deixar a delegacia. Foi nesse momento que a decisão se mostrou, como quem caminha silenciosamente e de repente aparece, se impondo. Era preciso que eu escolhesse um centro; algo novo para a minha vida. Era imperioso que tudo aquilo de tantos anos vividos construísse novos anos para se viver. Era necessário que eu me entregasse a um novo esforço, a uma nova conquista, a um novo abandono, ou afastamento.
Acredito que a vida seja mesmo como as conversas de balcão: cíclica, alta, desordenada. ”
Pedi a minha mulher que ligasse para ele, agradecesse por tudo, pedisse desculpas pela ausência e contasse a piada do garçom: “ele vai morrer de rir.”
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