terça-feira, 31 de maio de 2011

O Poço

O horizonte é o poço, como um campo magnético. Desde seu surgimento, imemorável, atraiu a curiosidade de todos. Bastava ouvir falar para se apaixonar por tamanho mistério. Logo todas as comunidades da redondeza conheciam sua fama. Lá as crianças brincavam livremente, correndo, caindo e tornando a correr; invariavelmente brigando, mas se entendendo no final. Os jovens serestavam à noite em torno do poço, namorando. Os velhos descansavam o corpo, tranqüilos, esperando o fim. Certo dia um homem, uma cuia e uma corda descobriram que o poço também alimentava. Divinamente extraia-se dele um liquido acinzentado, que era filtrado e servia de fonte de energia e bravura. Criou-se assim o habito de se comemorar com um festim aquele presente, habito que se espalhou e cresceu. Primeiro vieram os malêus do alto das colinas. Depois os tramoianos da planície sul e os gambiarreiros da planície norte. Do litoral próximo os perdigotos, do afastado os cêntricos e os bárbaros. O festim tornou-se festival. Os povos distantes começaram a armazenar o liquido que adquiriam e levavam embora. No ultimo festival registrado todos os povos, surtados, se mataram na disputa da fonte da vida.
Chamado hoje em dia, erroneamente a meu ver, de ‘Fonte de Baco’, o poço ganhou ares modernos. Circunscrito em um parque, estabilizado como patrimônio, é imagem de um passado que os visitantes, vindos pela esquerda e idos pela direita mediante o pagamento adiantado, não conhecem. Não sabem, por exemplo, que o motivo de ficarem afastados por uma barra de segurança a cinco metros do poço se deve aos invariáveis acidentes ocorridos em toda a história daquele buraco. Mais de um desatento se inclinou sobre o parapeito circular de tijolos lúgubres, encantado e excitado, e não resistiu ao peso do corpo. Diz a lenda que nenhuma das vitimas foi encontrada e que o poço é, na verdade, a boca ou a porta para outro mundo. Diz-se também que o liquido, ao contrario do que dizem os especialistas, alimentava não a energia e a bravura, mas sim a covardia e a autocomiseração, além de ser insosso.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ensaios e Fragmentos

       A obra literária instaura uma ambigüidade que, a grosso modo, pode ser representada pelos signos da sombra e da luz. Não sendo propriamente uma relação dicotômica a apresentada entre os termos, destitui-se o caráter sistêmico da obra literária em si para se afirmar o caráter inefável de um pólo que não se mostra, mas apenas se deixa entrever. Um pólo indescritível, já que vazio. Um pólo onde age, limitadamente, a arbitrariedade do leitor, produtor de sentido. A luz do escritor e a luz do leitor, unidas, projetam sobre esse vazio a matéria própria da literatura, que é, talvez, a sombra disforme de uma unidade.