Ele estava preocupado. Estalava os dedos e olhava de um lado para o outro. Puxou um cigarro do maço e riscou o isqueiro por seis vezes até obter a chama que lhe traria o trago tranqüilizador. Pensou por um instante. Sabia que não devia, mas mesmo assim desencostou da parede, deixando a visão de uma rua vazia e a trocando pelas escadas da entrada. Subiu os degraus e apertou o botão.
- Pronto?!
- Sou eu.
- E me traz boas novas?
- Se você vê por esse lado... Agora abre logo essa merda, tá frio pra caralho aqui fora.
Enquanto se virava para a rua novamente, pensava se não era o momento exato de correr o mais rápido possível, para o lugar mais longe que suas pernas o conseguissem levar, mas o som da espessa porta de ferro se abrindo o fez acordar. Ele foi entrando, atravessou o corredor de paredes de madeira, passou pela sala de estar do edifício com uma mesinha de centro em mármore e um sofá vermelho.
A batida na porta foi o que se escutou dentro do apartamento já vazio de espíritos, era o destino quem batia, era o derradeiro chamado para os dois.
O amigo abriu a porta, tomado pela ansiedade de quem espera nove meses. Recebia o fim, ao invés.
- Trouxe?
- Trouxe, mas não devia.
- Larga a mão desse negócio, o meu tá aqui também.
- Ah, isso é muito tranqüilizador. Aonde você quer fazer isso?
- Vamos sentar, daqui a pouco a gente decide. O mais importante é: quem vai e quem fica?
- Não sei qual é o pior.
Em meio a lençóis brancos, que cobriam todos os móveis da sala, ele achou uma cadeira para sentar, deu um grande trago no cigarro e soprou a fumaça como se estivesse evacuando a alma. Pensava que se fosse para ir, ele mesmo iria.
- Você quer ir ou ficar?
- Bom, eu cansei dessa casa, vivo nela desde... Sempre.
- Qual você prefere?
- Na minha opinião quem fica, fica na merda, por motivos óbvios.
O amigo desviou o olhar por alguns instantes, como se pensasse se estava certo o que acabara de dizer. De certa maneira estava. Quem vai não tem motivos nem meios para reclamar, talvez meios até tivesse, mas centros espíritas estavam fora de cogitação por princípios particulares.
- Que horas são? perguntou o amigo, procurando um relógio à sua volta.
- Três e meia. Disse o outro olhando o celular.
- Então está na hora. Aonde vai ser?
- Não existe hora certa, mas já que tem que ter uma, pode ser agora. Acho que o banheiro é mais fácil de limpar, né?
- Se tem uma coisa que eu não vou fazer, se eu ficar, é limpar a bagunça.
Ele seguiu o amigo até o banheiro. Suava como se estivesse em um forno. A mão tremia, sua camiseta estava encharcada. O banheiro se abriu e os azulejos azuis contrastaram com a sala envolta em sombras e poeira. Ele parou. Pensou. Hesitou por alguns instantes. Olhou seu amigo entrando dentro do box e ligando o chuveiro. O ouviu perguntar:
- E ai, vou eu ou vai você?
Sem pensar, pegou na mão do amigo que regulava a temperatura do quente para o frio, e como dois corpos humanos opostos, feitos um para o outro, encaixou a sua própria mão na dele, tornando-as uma só.
Depois disso, só se ouviu um...
E silêncio.
Ele riscou mais tantas vezes o isqueiro até conseguir acender outro cigarro. Caminhando lentamente, se aproximou da janela. Seis andares dariam uma boa queda, mas o reencontro não estava na pauta do dia. Então simplesmente andou, deixando a sujeira vermelha para tras, Carregando em seu corpo o remorso cravado por uma bala cravada na testa e a mão que antes tocara o outro e que agora fazia parte de um inteiro pela metade.
* Texto das antigas, baseado no roteiro de Lucas Camargo e levemente modificado por esse.