sábado, 11 de dezembro de 2010

As Intermitências da Vida



“Que sonhos?... Eu não sei se sonhei... Que naus  partiram, para onde?”
A casa Branca Nau Preta – Álvaro de campos


Do alto de uma torre forjada em aço de sucata e toda sorte de pedras vagabundas e duras, observa-se toda a Planície do Sono, desde sua fronteira com a cidade até a lonjura em que encontra a área de preservação dos macacos e sagüis. Do topo do ninho é possível enxergar todas as estradas e caminhos quase que de maneira integral, sem nenhuma defasagem que não possa ser corrigida com a imaginação. Lá estava Pedro Ricota, com seu rifle, seu cantil, suas pálpebras deslizando sobre o mundo e uma maquina de café quebrada. Sentia o sol fervilhar no céu, descendo, trazendo a noite e outro turno para outro qualquer. A calma há muito vista daquela altura, legítima para funcionar como um alívio dos mais prazerosos, capaz de gerar filas para assumir o posto sobre a torre, não passava do mais imediato tédio para Pedro. Nem a oferta de horizontes o animava, tão pouco o espetáculo estelar que ocorria em tempos de céu limpo e terceiro turno.


Capturado pela força das necessidades, Pedro levantou e começou a pular, saltitando de um lado para o outro como um boxeador, soltando os músculos em golpes inúteis. Logo se cansou e sentou-se novamente. Passou a observar com seu binóculo áreas escolhidas ao acaso do pescoço. Viu uma família que há algum tempo se estabelecera debaixo de uma árvore seca e galhuda, onde cavavam a terra para beber o chorume e comiam papagaios. Na hora em que o cabo Ricota olhou para o quintal daquela linda família, o chefe da casa, desconsolado, atirava em seu cachorro com uma velha garrucha. Pedro despertou, estático, confuso, quase nada lúcido. Rodou sobre o ninho e lançou seu olhar para outros rincões. Novamente não pôde acreditar no que viu.   


Lá estavam dois homens, talvez inimigos de Pedro, arrastando uma mulher desfalecida pelos cabelos. Eles discutiam energicamente, gesticulando e enfiando seus dedos um na cara do outro. De repente a mulher, antes imóvel como um boneco, começou a se debater, tentando se soltar; o soldado que a segurava começou a chutá-la na cabeça e a chutar seu companheiro, que lhe devolveu com socos na orelha e muitos outros pontapés. Os dois caíram pelo chão, rolando, enquanto a mulher tentava se levantar, tonteando o corpo que teimava em sentar. Pedro já estava pronto para puxar o gatilho. Observava curioso e impaciente aquela disputa bizarra e pensava em acabar primeiro com o sofrimento da dama; depois torturaria os bárbaros com óleo e alfinetes. Ricota estava preso a esses pensamentos e os homens ainda rolavam como cães quando se ouviu a primeira explosão.


O horizonte fremiu, tremendo e se expandindo com o cogumelo que crescia absoluto, imperial, eclipsando o céu como uma tampa centrifuga de fumaça e fogo e átomos minúsculos que se tornavam gigantes e limpavam o campo e levantavam o chão. Os homens arregalaram os olhos, que refletiam o cogumelo em ascensão, a incredulidade, o corpo paralisado como por uma morte súbita e efêmera. O desespero, a correria, encontrões, empurrões, as pernas ardendo em uma fuga delirante e inútil.    

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O Cais

Da sala do cais
via-se o sol
estalar seus dedos
sobre o mar.

Ao largo do Horizonte naus eram engolidas.

O homem sob os papéis
invadia o vazio
da fantasia.
Criava danças, frases, música;
subia às alturas do nada
e mergulhava ocioso
numa vaga qualquer.  

Recolhia com o olhar
outra vida, na imagem
perfeita que lhe cabe:
pernas esticadas
o corpo solto
mulheres e sombras.
- A santa calma da paciência.

O mar estava mudo.     
O bloco seguia em frente.
Uma nau partia e o homem,
cego, ainda olhava para a janela.