Fragmento de carta a Andrei Tarkovski.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Diagnóstico
Fragmento de carta a Andrei Tarkovski.
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Vida de Mendigo
Acabei de encontrar João Roberto, antigamente conhecido pela turma como Hercules. Era mesmo, profissionalmente, um reinador de marca maior. Destemido, chegou a beter em um menino na presença do senhor diretor. Ainda me lembro do pequeno jogo que fazíamos no intervalo, chutando lata de refrigerante amassada até passá-la por baixo, pelo vão da perna de alguém, para aplicar o castigo na bunda. Fernandinho, que não ornava com nossa turma, se achando agredido por um chute mais forte que Hercules lhe dera, retribuiu com uma cotovelada no peito e correu, atravessando pátio, corredores, a bandeja do café do diretor para se enfiar na sala desse. Hercules entrou logo em seguida e nem pensou, fechou a mão e mandou ver. Isso foi na quarta serie. Na quinta João Roberto quebrou a clavícula e a perna quando foi arremessado pelo ventilador de teto. Fez também uma professora chorar, pois era um instigador e transformara a ultima aula do dia num grande mercado de aviões e bolinhas de papel, lançadas por mãos e canudos de caneta. Hercules foi expulso e eu para outra escola.
Vi-o primeiro pela janela. Desci as escadas correndo, passei na geladeira e sai. Ele já ia passando.
- Hercules – chamei – Hercules! Robertinho!
Ele virou a cabeça, mas continuou a andar, só parando ao me ver correr em sua direção.
- ei, João Roberto, como vai? Quanto tempo! Não lembra de mim? – disse, abrindo os braços e sorrindo.
- claro, meu velho. Como que você tá com essa força?
Depois de um momento sem jeito, meio aperto de mão, meio abraço, meio tapinha nas costas, e do brinde, perguntei como andava sua vida.
- vai andando, né, meu velho? Difícil pra todo mundo.
- com certeza, com certeza. – respondi, enfático. – mas sempre a gente da um jeito neh? Ainda mais você, sempre esperto. Tá morando onde?
- moro pro lado da rodovia, indo pro batalhão. Ali, atrás da companhia de luz. É lugar bom, viu, meu velho? Só atrapalha mesmo a poeira, por que aquele terrenão da companhia é uma terra disgramada. Mas também ajuda um pouco. Porque assim da pra cutucar o nariz com mais gosto. E você que tá morando bem aqui. Lugar bom esse aqui, não é?
- é sim. É bem calmo.
Bebi o resto da cerveja, joguei a lata fora e abri a outra que estava na reserva. Brindamos mais uma vez e Robertinho me disse:
- é gostoso mesmo toma uma cerveja. Eu não bebo muito não, sabe? Prefiro não arriscar de ficar com o demônio no corpo. Mas assim, às vezes eu tomo uma de leve. Não cerveja, que fica meio caro. Tomo meio corotizinho no sábado, ou no domingo. E só assim, porque o trabalho fica mais fácil nesses dias, o pessoal fica mais em casa, né?
- o que você faz? Perguntei a ele, interessado.
- Bom, eu sou autônomo, né? Trabalho de vigia. – respondeu Hercules, caminhando lentamente em direção a calçada – trabalho duro. Tem que ter as perna boa, corre perigo. Paga mal, mas a gente da um jeito de implanta a renda.
Dito isso ele abaixou-se e remexeu na moita onde havia jogado a latinha. Colocou-a no chão e pisou em cima, guardando depois na sacola que carregava nas costas, enquanto dizia:
- por exemplo as latinha né? Eu não sou catador não. Mas eu vou juntando umas pros catador depois passar em casa e eu vendo pra eles. Fico no meio lucro, né? Porque eles ganham mais vendendo pro reciclador. Mas tudo bem também. Por que se eu tivesse que pegar latinha à vera não ia poder estar trabalhando no meu ramo, que é a vigia mesmo. Eu gosto mesmo de ficar ai, andando pelos bairro.
- em que bairros você trabalha?
- em todos. Fico das onze as cinco em um, ai vou na rodoviária, ou no centro mesmo, pra arrecadar algum e comer alguma coisa. As seis vou pra outro bairro, fico até as quatro da madruga. Depois algum posto de gasolina ou boteco resolve meu problema da janta. O gostoso mesmo é brincar com o pessoal na rua, sabe? À noite assim eu fico andando como se estivesse escondendo. Encontro alguém vindo na minha direção já dou meia volta, entro na próxima rua, dou a volta no quarteirão e saio por trás dela. Passo do lado dela, andando ou correndo, e sumo atrás de uma arvore. Fico observando as pessoas. De dia é mais complicado. O que da pra fazer é pedir as coisas nas casas, contanto umas boas historias, de chorar ou de rir. Com uma boa historia da pra conseguir umas coisas boas, mas mesmo assim é difícil.
- ê Robertinho. Não toma jeito mesmo, né? – disse, rindo - você se lembra daquela vez em que você socou o Paulo, na sala do diretor?
- claro. Menino desgraçado aquele viu. Nunca fui com a cara dele.
- ele roubou seu lanche, não foi?
- foi sim. Isso mesmo.
- é. Ele era um tanto folgado.
- Muito. Um tanto não, muito folgado. – respondeu ele.
Eu disse a ele que estava tarde demais e era melhor eu ir deitar. Apertei sua mão. Ele me pediu ainda mais uma cerveja.
- nossa, João, mil desculpas. Essas eram as ultimas.
Ele agradeceu e disse que não importava. Eu entrei, lavei a mão, passei na geladeira e subi para o quarto.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
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