sábado, 19 de fevereiro de 2011

Vida de Mendigo

Acabei de encontrar João Roberto, antigamente conhecido pela turma como Hercules. Era mesmo, profissionalmente, um reinador de marca maior. Destemido, chegou a beter em um menino na presença do senhor diretor. Ainda me lembro do pequeno jogo que fazíamos no intervalo, chutando lata de refrigerante amassada até passá-la por baixo, pelo vão da perna de alguém, para aplicar o castigo na bunda. Fernandinho, que não ornava com nossa turma, se achando agredido por um chute mais forte que Hercules lhe dera, retribuiu com uma cotovelada no peito e correu, atravessando pátio, corredores, a bandeja do café do diretor para se enfiar na sala desse. Hercules entrou logo em seguida e nem pensou, fechou a mão e mandou ver.  Isso foi na quarta serie. Na quinta João Roberto quebrou a clavícula e a perna quando foi arremessado pelo ventilador de teto. Fez também uma professora chorar, pois era um instigador e transformara a ultima aula do dia num grande mercado de aviões e bolinhas de papel, lançadas por mãos e canudos de caneta. Hercules foi expulso e eu para outra escola.
Vi-o primeiro pela janela. Desci as escadas correndo, passei na geladeira e sai. Ele já ia passando.

- Hercules – chamei – Hercules! Robertinho!

Ele virou a cabeça, mas continuou a andar, só parando ao me ver correr em sua direção.

- ei, João Roberto, como vai? Quanto tempo! Não lembra de mim? – disse, abrindo os braços e sorrindo.
- claro, meu velho. Como que você tá com essa força?

Depois de um momento sem jeito, meio aperto de mão, meio abraço, meio tapinha nas costas, e do brinde, perguntei como andava sua vida.

- vai andando, né, meu velho? Difícil pra todo mundo.
- com certeza, com certeza. – respondi, enfático. – mas sempre a gente da um jeito neh? Ainda mais você, sempre esperto. Tá morando onde?
- moro pro lado da rodovia, indo pro batalhão. Ali, atrás da companhia de luz. É lugar bom, viu, meu velho? Só atrapalha mesmo a poeira, por que aquele terrenão da companhia é uma terra disgramada. Mas também ajuda um pouco. Porque assim da pra cutucar o nariz com mais gosto. E você que tá morando bem aqui. Lugar bom esse aqui, não é?
- é sim. É bem calmo.

Bebi o resto da cerveja, joguei a lata fora e abri a outra que estava na reserva. Brindamos mais uma vez e Robertinho me disse:

- é gostoso mesmo toma uma cerveja. Eu não bebo muito não, sabe? Prefiro não arriscar de ficar com o demônio no corpo. Mas assim, às vezes eu tomo uma de leve. Não cerveja, que fica meio caro. Tomo meio corotizinho no sábado, ou no domingo. E só assim, porque o trabalho fica mais fácil nesses dias, o pessoal fica mais em casa, né?
- o que você faz? Perguntei a ele, interessado.
- Bom, eu sou autônomo, né? Trabalho de vigia. – respondeu Hercules, caminhando lentamente em direção a calçada – trabalho duro. Tem que ter as perna boa, corre perigo. Paga mal, mas a gente da um jeito de implanta a renda.

Dito isso ele abaixou-se e remexeu na moita onde havia jogado a latinha. Colocou-a no chão e pisou em cima, guardando depois na sacola que carregava nas costas, enquanto dizia:

- por exemplo as latinha né? Eu não sou catador não. Mas eu vou juntando umas pros catador depois passar em casa e eu vendo pra eles. Fico no meio lucro, né? Porque eles ganham mais vendendo pro reciclador. Mas tudo bem também. Por que se eu tivesse que pegar latinha à vera não ia poder estar trabalhando no meu ramo, que é a vigia mesmo. Eu gosto mesmo de ficar ai, andando pelos bairro.

- em que bairros você trabalha?
- em todos. Fico das onze as cinco em um, ai vou na rodoviária, ou no centro mesmo, pra arrecadar algum e comer alguma coisa. As seis vou pra outro bairro, fico até as quatro da madruga. Depois algum posto de gasolina ou boteco resolve meu problema da janta. O gostoso mesmo é brincar com o pessoal na rua, sabe? À noite assim eu fico andando como se estivesse escondendo. Encontro alguém vindo na minha direção já dou meia volta, entro na próxima rua, dou a volta no quarteirão e saio por trás dela. Passo do lado dela, andando ou correndo, e sumo atrás de uma arvore. Fico observando as pessoas. De dia é mais complicado. O que da pra fazer é pedir as coisas nas casas, contanto umas boas historias, de chorar ou de rir. Com uma boa historia da pra conseguir umas coisas boas, mas mesmo assim é difícil.
- ê Robertinho. Não toma jeito mesmo, né? – disse, rindo - você se lembra daquela vez em que você socou o Paulo, na sala do diretor?
- claro. Menino desgraçado aquele viu. Nunca fui com a cara dele.
- ele roubou seu lanche, não foi?
- foi sim. Isso mesmo.                                          
- é. Ele era um tanto folgado.
- Muito. Um tanto não, muito folgado. – respondeu ele.

Eu disse a ele que estava tarde demais e era melhor eu ir deitar. Apertei sua mão. Ele me pediu ainda mais uma cerveja.

- nossa, João, mil desculpas. Essas eram as ultimas.

Ele agradeceu e disse que não importava. Eu entrei, lavei a mão, passei na geladeira e subi para o quarto. 

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