domingo, 20 de fevereiro de 2011

Diagnóstico


"Sonhei que atravessava espelhos. Encarava-os com dignidade e resistência. Olhava no fundo dos olhos que me miravam e me lançava. Depois de uma meia dúzia deles me deparei com um garoto pequeno e magro, que segurava uma jarra de leite. Levava-a à boca, hesitava, olhava para o lado, afastava a jarra em direção ao peito. Tentei socá-lo, mas minha mão estava como que presa, segura pela culpa ou pelo receio. O teto, então, desabou e trouxe consigo uma chuva brilhante de placas de transito, acostamentos, olhos de gato, rotatórias e entradas impedidas. Aquela alucinação causou-me vertigem, então me joguei ao chão, como quem afunda o rosto num balde d’água. Senti o silêncio do mar profundo, ouvindo as cores insinuantes, perigosamente. Quando emergi tudo estava mudado. Procurei em vão a saída daquele palácio tão nobre e ao mesmo tempo tão mal-acabado. Acordei com o despertador, tocando como sino na torre."

Fragmento de carta a Andrei Tarkovski.
 

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