quarta-feira, 2 de março de 2011

Traça em prosa*

Preso em uma viela colonial, por trás das palavras. Sobretudo, percebo as coisa à mão, as coisas que a mão procura , tateia com autoridade, utiliza como prática. Um copo, um cigarro, uma boca. Por trás do toque toda uma infinidade de outras coisas, abstratas, pseudoconcretas, vagas como o mar. Poéticas como todas as outras; o rabo do galo, o espanto, o tempo. Perigosas como poucas, como os livros e os atos, os prazeres e os contratos. Viela parcialmente construída, ajuntamento de tijolos uniformemente. Conseqüências da geometria. Geometria dotada de passado, presente, futuro. Geometria sem retinas para absolver os fatos. Geometria maçante e maciça, vertiginosa ao claustrofóbico. Penso, resisto; afrouxo e perco à primeira centelha de paixão, palavra difícil, difusa, impertinente. Qual o propósito, do tempo frio, do tédio, da folia? Moeda comum de muitas faces, a vida escancarada, a perversa realidade? Penso, com muita freqüência, nas possibilidades da vida gregária. Alteridade, preconceito, argumentos, merecimentos. Do que somos feitos nós, como coletividade, sem idealismos? Sem as hipócritas prescrições, que atingem tanto a nobre burguesia cafona quanto a estilizada classe alternativa estudantil. Sem os mitos e as necessidades correntes. Paraíso perdido na onírica ilusão. Por conta de quem? Curiosidade infantil... se não fosse a autocensura... seguro um isqueiro, uma caixa de madeira. Trago, no mínimo, uma tranqüilidade transparente e transeunte, passeio de euforia no marasmo, depravação da subjetividade. Depravação? Revisão, talvez. Qualquer coisa menos uma afirmação, quase sempre eufórica e imbecil. Dúvida. Um trago de dúvida, uma resposta de fumaça. Sim, dúvida. Fruto dileto do mistério, do incognoscível, do inescrutável.  Dos olhos, da alma, das vísceras. Fruto, principalmente, da ignorância nossa de cada dia, sub-repticiamente escamoteada. As classes, as roupas, os catálogos e rótulos rodam na descarga das necessidades comuns, da merda e do macarrão. E a diferença brilha na indumentária, como brilham os animais treinados, por trás das palavras, presos em uma viela colonial.


* Traça: entendida aqui, sobretudo, como inseto adotado da racionalidade e, desta forma, crítico, como já disse outro. A prosa é considerada no seu sentido corrente. 

2 comentários:

  1. "E a diferença brilha na indumentária, como brilham os animais treinados, por trás das palavras, perdidos em uma viela colonial."

    Bela conclusão, tapa na cara da burguesia.

    Abraço, primo

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  2. E aí, monstro, vamo metê atividade nisso aqui, irmão.

    Abraço!

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