sexta-feira, 8 de julho de 2011

Retrato de um duque quando velho

“Preso pelo cordão umbilical, somente poderia alcançar o repouso no ponto mais degradante de sua oscilação após um movimento tortuoso e um tempo considerável.”
Das revoluções metafísicas. Cap. VI

Meu pai morreu dormindo, à tardezinha. Descansava sua pança empanturrada no jardim do palácio, como sempre fazia nas reuniões familiares mais privadas. Por ele, o faria também nas grandes festividades, nas recepções analiticamente elaboradas de dona Gertrudes, nas mais propícias horas e que se dane o decoro. Mas o decoro... Que morresse como um pecador. O infortúnio quem sofre sou eu, com esse fardo católico pesando em minha cabeça e nos arredores. A tradição, meus caros, tem duas mãos de chumbo e a gravidade a seu favor. Meu pai morreu e seu fantasma ainda me atormenta, por mais que Dr. Freud tenha os remédios. O que causa surpresa é, já naquele tempo, termos tão em conta as razões que nos proíbe o desperdício; as raspas do banquete do funeral servindo a entrada das núpcias... Coisa mais desagradável. Contudo nem só de desventuras lacrimosas vivem os homens. Aprendemos, sim, e certamente nos transformamos, mesmo que nossos ideais destinos nunca sejam tocados na vigília. E como é áspero mudar. Por mais olhos que se tenha, por mais noções e honradez e talentos. A sincera mudança é a que nos chacoalha no balde, quando a corda está por um fio e ainda não podemos ver o chão seco. Como da vez em que meu pai morreu.
               
               A historia já é conhecida. Não vale a pena nem resumi-la, depois de tantos pastiches. Cabe apenas relatar que me cortou a alma em pedaços minúsculo e irreconciliáveis. Primeiro o pai, depois a mãe, depois Ofélia e ainda todos juntos novamente e mais alguns, numa covardia irrecuperável e já corrigida pelos literatos e dramaturgos baratos. Se fugi, se morri para o mundo e para melhor exercer minha liberdade foi por escorregar das mãos das normas, do decoro, da honra que me era esperada. Agi como um rato, como todos aqueles ratos que me olhavam pelas costas com poucos pares de olhos e eu com tantos... A inteligência é uma dádiva e um castigo, salva a pele e a exaspera. Queriam que eu fosse um herói, um modelo. Consegui ser apenas um intelectual herdeiro e depravado, movido por ventos alheios que se me impõem e me constrangem, a mim, um menino sensível como um carvalho num vaso de flores, que se acovardou, forjou a própria morte e sumiu no mundo.
                
               Jamais conseguirei contar o que passei, o que senti, depois que Horácio e eu trocamos de papel. Meu duplo, um contador de histórias...  Não conseguiria porque a mínima lembrança me enche o coração e rouba-me as palavras... O fato é que vaguei. Corri e venho correndo o mundo, protelando a hora de ser homem, afastando a madureza com frases ordinárias e ironias desgastadas (quão velha está essa figura!), olhando com séria desconfiança e interesse dissimulado para os objetos que encontro, estudo e descarto como um rato de laboratório fatigado. De que me vale o mundo se o mundo me virou de ponta cabeça? O mundo e suas molas desproporcionais, suas encruzilhadas, sua parca diversão. Divirto-me comigo mesmo, no meu pedestal rebaixado, de onde tudo vejo e tudo desprezo pelo humilde gosto do riso. É como tentar forjar uma comédia dentro do épico, do nobre. Quando não se tem a mínima certeza sobre qualquer coisa arrumamos alguns deveres e alguns prazeres. São como bóias no mar alto e laminado.
                
               Não pensem que procuro algo. Não sou nem serei nada; nem mesmo sonho. Olho para os lugares, escuto, replico, provoco, mendigo um deslize, um olhar ou um gesto mentiroso. Minto também. Procuro confundir, enquanto brinco com toda a massa estéril e anestesiadora que me legaram meus preceptores. Posso dizer, meus caros, que minha vida virou um jogo no qual só as batalhas me importam, afinal, no fim das contas, há sempre um rio para carregar cada um, uma musica para acalentar a tristeza, uma loucura para aliviar o tédio das quatro paredes, dos quatro pontos cardinais. A vitória é para as flores, que não usam máscaras nem resistem decididas pela resignação.

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